Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Um jeito de ser


Queria mesmo é falar de futebol. No mundo em que estamos vivendo, neste pleno século XXI que nos arrumaram, muito meio embromador, o futebol ainda é um dos poucos acontecimentos que conseguem mobilizar com paixão populações de todos os cantos do planeta. Se ainda é um esporte para poucas estrelas; um esporte que movimenta uma riqueza incalculável para vários paisitos desse mundão afora; que vive da política, como todos nós; na prática, continua sendo um esporte genuinamente democrático. Jogam brancos, negros e amarelos. Meninas, vocês sabiam que a China é o país com o maior número de jogadores de futebol do mundo! China, ah! a China, vai roubar de todos o posto de liderança de qualquer ranking mundial. Daqui a pouco, será o maior país de língua portuguesa do mundo!

Não vou voltar a esse assunto. Mesmo querendo muito falar de futebol, vou falar de mudança climática, porque hoje é o Blog Action Day, um mob-blog para demonstrar a força de mobilização das redes sociais no ambiente virtual. Ainda acho que futebol mobiliza mais, mas tudo bem, vou fazer a minha parte.

Já cansei de falar sobre o risco que estamos correndo. O planeta está ficando velho, ranzinza, temperamental, implicante, impertinente, birrento mesmo. Com o passar do tempo, não somos nem um pouco diferentes disso. É claro que tem as exceções. Eu mesma acho que melhoro dia a dia. Cada vez menos as coisas me irritam, me incomodam ou me chateiam. E se aparece alguma que me aborrece um pouco mais, faço como uma amiga, mando pra tonga da mironga do cabuletê.

Esse envelhecer, do qual ninguém escapa, nem o planeta, é, talvez, o maior responsável por essas mudanças que estamos assistindo. Pelos dilúvios, tsunamis, terremotos, secas, desertificações absurdas, vulcões, furacões e outros ões. Não tenho dúvida disso. É muita pretensão nossa achar que somos os autores dessa tragédia. Mas também não tiro nossa responsabilidade. Acho que o jeito, o mal jeito que escolhemos para estar no mundo acelera o nosso envelhecimento. Mudar esse jeito predador de ser pode conter um pouco esse movimento inexorável de vida e morte a que estamos todos submetidos nesse universo de deus e, quem sabe, nos dar a chance de descobrir a fórmula da vida eterna. Duvido, mas vá lá.

Não estou sendo pessimista, mas pragmática. Temos de encontrar um jeito de estar sustentável, num mundo que envelhece a nossa revelia, habitado por nós, que também estamos envelhecendo a nossa revelia. Um mundo que irá perder boa parte da sua fauna e flora, porque é assim que é desde o início de todos os tempos. Um mundo que terá de abrigar outras espécies da fauna e flora do mundo que virá. Um mundo com um jeito de funcionar que já está mais pra lá do que pra cá de tão caduco que ficou.

Talvez essa seja a única variável que podemos, de fato, alterar, com nossas intenções e ações. Encontrar um jeito diferente de fazer a roda da vida girar, menos big, menos plus, menos super, menos hiper, menos mais, poderá ser uma saída. Inventar um jeito mais simples de estar no mundo, possível de ser compartilhado com todo o planeta, sem exceções, poderá ser uma solução. É mais ou menos isso que dei conta de pensar.

Inté moçada.
Foto: minha

Domingo, Agosto 30, 2009

Um mundo de tralhas


Tem isso. Quando as coisas estão no seu lugar nem percebemos como elas se acumulam. Elas vão chegando, se espremendo, cavando espaço até encontrar uma vaga. Se instalam ali e pronto. Aquele pedaço de vazio vira o lugar delas. Só quando precisamos remover tudo de um cômodo para outro é que percebemos a tralha que juntamos na vida. Um mundo inteiramente dispensável, mas que insistimos em preservar acreditando que tem algum significado. Ter até tem, porque damos um a qualquer besteira que caia nas nossas mãos. Um pedaço de papel com um risco torto varando o espaço branco de um canto a outro vira um dragão de fogo invadindo a Terra-Média. O dragão nem é tão importante, mas foi meu menino que rabiscou. Nem tinha dois anos. E foi num dia em que estava chovendo e ele estava febril, com o nariz entupido, para variar, e não podia sair da cama, porque estava sem meias e muito cansado para encontrá-las perdidas debaixo da estante. Passou a manhã deitado, rabiscando papéis e inventando histórias. E eu deixei porque era melhor assim.

Mas os papéis são apenas uma parte das tralhas que juntamos. Tem ainda as roupas que não vestimos mais, porque não nos servem, porque crescemos, engordamos, porque saíram de moda, porque estão gastas ou por qualquer outra razão que nem nos lembramos mais. Mas juntamos um guarda roupa inteiro de pagãozinhos bordados, moletons de mickey, macacãozinhos de bichinhos, saias indianas, um blusão dupla face, twin set de todas as cores, três calças lee desbotadas e rasgadas na barra, um terno cinza com colete e tudo, uma roupa de anjo de alguém que nem sabemos quem, uma camisa listrada, uma fantasia de índio, uma de chaplin, quatro quimonos e meia dúzia de faixas de cores variadas e assim por diante. Tudo dobrado dentro de malas, sacolas, mochilas, tudo escondido nos maleiros. Só porque, em algum momento, conquistaram a glória de ter um significado.

Mas quando temos de tirar tudo isso e mais, muito mais, como uma máquina de retrato polaroid, uma olivetti portátil, uma espada de jedi, um quadro a óleo da Igrejinha do Ó, a coleção do Pasquim e assim por diante, não podemos deixar de ficar brutalmente pasmos com a nossa capacidade em atribuir significados quase eternos para coisas que pertencem, inquestionavelmente, ao mundo das utilidades passageiras. E vamos revirando caixas para esvaziar o cômodo. Aí encontramos a coleção de pedras, de tampinhas, de figurinhas das seleções do mundo inteiro, de dinossauros, de cobras, de bichos esquisitos, de chaveiros, de canetas, de clips recolhidos nas ruas, de papéis laminados que embrulhavam todos os sonhos de valsa que já devoramos desde a nossa adolescência, de papel de carta, de caleidoscópios, de recortes de jornais com notícias bizarras e um sem fim de coleções.

Mas aí tem outra coisa. Como nos desfazermos de tudo isso? Quem será o merecedor desse patrimônio tão valioso? Quem vai querer ganhar de presente uma colcha de crochet, trançada em linha de meia fina desfiada, pacientemente confeccionada por uma vó de mais de 90 anos? Duvido que encontre essa pessoa por aí. Ela não existe. E se existe alguém que queira, irá usá-la como se fosse uma colcha qualquer, sem nenhum significado, pois esse irá se perder para sempre da nossa memória, quando já não pudermos mais encontrar, escondida no fundo de alguma mala, a colcha de crochet de meia fina desfiada que uma dia a vó de quase 90 anos crochetou incansavelmente, para ajudar o tempo a passar. Não. Melhor guardá-la.

Melhor guardar tudo, devolver todas as coisas ao seu lugar. Guardar a colcha, as coleções, as roupas que um dia tiveram um significado muito especial, os papéis, os cadernos, os pedaços de fitas, as caixas de jogos, os relógios, as armações de óculos e toda essa tralha que juntamos na vida. Voltar com tudo para dentro das caixas e desocupar o cômodo o mais rápido possível, porque o pintor já está terminando o corredor e antes que a manhã termine, ele vai entrar no quarto e precisa de tudo liberado. Vai pintar as paredes de branco e a do fundo de verde kiwi para quebrar a monotonia. Vai ficar bárbaro!

Inté.
Foto: do Dani. Um mosquito de Évora.

Sábado, Junho 20, 2009

Viva a comunidade alternativa!


Blogs, twitters, wikis, celulares, mídias móveis, interativas, livres, amigáveis, superativas e o escambau. É nesse mundo, da sociedade da informação e da comunicação, que sobrevivemos. Para o bem e para o mal. Para o nosso bem ou para o nosso mal. Não faz muito sentido mesmo falar em reserva de mercado, em exigência de diploma para se exercer o ato mais banal da nossa existência que é a comunicação, a expressão das nossas angústias, constatações, aflições, indignações, espantos, admirações, alegrias e tristezas. Mais do que compartilhar uma visão de mundo, hoje necessitamos desesperadamente compartilhar um mundo de visões, múltiplas, diversas, plurais, para desse conjunto, dessa construção coletiva, extrair a nossa percepção da vida, clarear o nosso olhar sobre o mundo das coisas, das pessoas, dos movimentos e desse olhar estruturar o nosso jeito de estar por aqui. Só nosso ou de todos nós.

Não faz sentido reservar essa possibilidade, hoje ao alcance de cada um, apenas para alguns. Isso, evidentemente, não quer dizer que a função do jornalismo e a prática do jornalista estejam superadas. Pelo contrário, estão se tornando mais complexas. Não nos satisfaz mais ter as informações nas mãos uma vez por dia ou duas ou três. Já as temos multiplicadas pelo infinito no google e nas nossas redes virtuais. Queremos mais, muito mais. Queremos um jornalismo e um jornalista que nos ajudem a compreender os movimentos da vida e não só dos fatos, a perceber suas complexidades, suas conexões com o que já passou e com o que virá. Queremos um jornalismo de opinião, posicionado, argumentativo, investigativo, adulto e não a banalidade das manchetes e dos disse que disse. Queremos contrapor nossas múltiplas visões de mundo, a uma outra, refletida, amadurecida, também múltipla na sua origem e construída menos a partir das certezas, da objetividade dos fatos, mas das dúvidas, das inquietações, das subjetividades que esses fatos escondem. Um jornalismo de gente grande e não pueril como esse que aí está.

É evidente que, para isso, não basta revogar a exigência de um diploma. Para multiplicar as vozes nesse mundo midiático, é preciso liberá-las. É preciso, por exemplo, urgentemente, inadiavelmente, que haja o reconhecimento das mídias comunitárias, para que possamos conhecê-las. Queimar toneladas de equipamentos de rádio sob a alegação de que são ilegais não contribui para a liberdade de expressão. É preciso deixar as ondas comunitárias navegarem nesse espaço público, sempre dominado pelas grandes mídias. É preciso conectar os milhões de analfabetos tecnológicos. Mais. É preciso democratizar as redações, permitir a livre circulação de idéias, de pontos de vista diferentes, deixar aflorar as contradições do discurso pronto, estimular o debate interno, controlar as vaidades e revogar as arrogâncias. É preciso rever os currículos das escolas de jornalismo, aprofundar seus conteúdos, torná-los mais complexos, mais arrojados, para que os profissionais ali formados saiam maduros para a vida. É preciso responsabilizar os donos da mídia pelos seus atos de desinformação, de incomunicação, de restrição à liberdade de expressão.

Como vêem, esse não é um mundo de facilidades. Mais, muito mais do que revogar a exigência do diploma de jornalismo, é preciso revogar a pretensão de se ter no mundo um discurso único para explicar toda a nossa diversidade. Como jornalista, é mais ou menos isso que espero.

E espero mais. Que se revogue a exigência de diplomas e carteirinhas de outras categorias. Sinto limitada a minha cidadania, quando, para defender meus direitos, sou obrigada a constituir um advogado, com diploma de bacharel e carteirinha da OAB. Por que? O Direito, assim como o Jornalismo, é uma atividade intelectual, do ramo do conhecimento humano. Senso de justiça e bom senso não são monopólio dos juristas e advogados e o conhecimento da lei, é meu dever como cidadã. Jamais posso alegar, em minha defesa, o desconhecimento dela. Ousando, defenderia até o nosso direito de atuar como juízes não togados, sem a exigência de diplomas. Seria até mesmo uma solução para desencalhar os milhares e milhares de processos que estão mofando nas prateleiras dos tribunais.

E mais, que se repense também as exigências ou as restrições que se impõem, por exemplo, aos loucos dos estudantes de Medicina. Depois de concluírem um curso de seis, sete anos de estudo integral - manhã, tarde e noite - para obter as credenciais de especialistas, são ainda obrigados a disputar novo vestibular, com apenas uma ou duas vagas disponíveis por ano, e cumprir mais um ou dois anos de residência, para aí sim, estarem autorizados a usar um título. A dermatologia, por exemplo, abre uma vaga por ano. Isso não é reserva de mercado? Não é uma restrição grave ao desenvolvimento e expressão de novos talentos? E viva a homeopatia, a acupultura, do in, chi kong, chás, garrafadas, pajelanças, a confissão e a eucaristia. Não vivemos mesmo num mundo de facilidades. Por isso espero mais, muito mais. Espero muito de tudo isso.

Inté quando der, pois ando muito ocupada me especializando, especializando, especializando, para alguma coisa muito boa que só pode estar por vir, para justificar tanto esforço. E quando não, estou vivendo.

Sábado, Maio 23, 2009

Janelas abertas


Sempre prefiro janelas abertas. Se estão fechadas, quando chego em casa, abro todas elas. Prefiro ainda mais as janelas escancaradas, sugando a vida que corre lá fora e despejando-a no meio da casa. Latidos de cachorro misturados à voz rouca da cozinheira, desfiando suas histórias na beira do fogão; o ronco de um motor de carro abafando o grito dos meninos num quintal qualquer da vizinhança; e a luz entrando pela casa, mudando a cor esfumaçada do sofá, iluminando os cantos empoeirados do escritório; e o vento varrendo o corredor, espalhando mais outros sons que saem não sei de onde para se abrigarem dentro da minha casa. De um violão dedilhado que escapa de algum quarto do prédio dos fundos; de um rádio no talo anunciando mais uma desgraça no mundo; do assobio dos lixeiros subindo a rua para recolher nossas sobras desperdiçadas dentro de sacos azuis; de uma torneira aberta, deixando a água jorrar e escorrer ralo a fora; e de um choro, um consolo, um riso e o passou, passou, que alguém repete como se fosse um emplasto embebido em mel, doce, doce, encharcando de esperança a hora que vem depois de outra hora, depois de outra, depois de outra e assim um dia, outro dia e mais outro e um mês, um semestre, um ano, uma vida. Adoro janelas abertas, de par em par, bem escancaradas para deixar a vida entrar com força. Adoro.
Inté

Domingo, Maio 03, 2009

Que bom, que ruim!

Os pensamentos fragmentados em mil planos

Não sei se penso ou não penso. As ideias ainda estão embaralhadas e, certamente, não irão se ordenar numa escrita solitária, mas só num amplo debate que não tenho esperança que se dê tão cedo. É exagero admitir que gostei, mas é embaraçoso reconhecer que também não gostei. Concordamos todas que a Lei de Imprensa tinha um ranço de coisa velha. Seu texto refletia as preocupações do momento mesmo em que foi editada, preocupações que, em alguma dose, já foram superadas. Em outros trechos, trata de questões que já caducaram. Um exemplo, até simplório, é a multa que estabelece para quem vender ou distribuir jornais, periódicos, impressos cuja entrada no país tenha sido proibida. O dito terá de pagar 10 mil cruzeiros por exemplar apreendido. Nem sei mais quanto isso vale e nem sei se alguém sabe.

E qual o significado dessa restrição no mundo de hoje? Um mundo globalmente conectado, no qual as informações circulam em tempo real e estão acessíveis de qualquer parte do planeta? Meus filhos, por exemplo. Eles tem o hábito de ler jornais, mas não a versão em papel, que deixam para nós, viciados em café com notícia, todas as manhãs. Eles preferem a versão eletrônica, que acessam por meio dos portais da grande imprensa e sites do mundo inteiro, atualizados ao longo do dia. Azar o nosso, que temos de esperar 24 horas, se não quisermos nos dar ao trabalho de acompanhar on line todo o noticiário, como eles fazem. É claro que nada é tão simples assim. Ainda temos uma China, por exemplo, para desqualificar esse argumento. Mas não tenho dúvidas de que vivemos um outro momento e que esse tipo de restrição é de difícil compreensão para as novas gerações.

E seja como for, o fato é que se existe um consenso, é o de que essa lei não dava mais conta da nossa realidade, que ficou ainda muito maior, e precisava mesmo ser revogada. O que me incomoda, portanto, não é a sua revogação, mas a forma como foi tornada letra morta e, com igual incômodo, a meia verdade que essa notícia enseja. Amanhecemos sendo convencidos de que agora sim, agora sim, temos plena liberdade de imprensa. Como se não houvessem outras leis, hoje muito mais fortes, exercendo o controle da informação nos meios de comunicação. Que eu saiba, as leis de mercado, essas sim, hoje poderosas, continuam em pleno vigor. Ou não? Sei que não é tão simples assim detectar a influência do poder econômico no processo de edição de um jornal, mas seria ingenuidade acreditar que não exista. Da mesma forma, o poder político também abre suas asas sobre as informações que circulam na mídia. Se é legítimo ou não, é outra discussão, mas que existe uma guerra surda nas redações quando determinados assuntos entram em pauta, não tenham dúvida.

E agora? Revogada a lei, sem um amplo debate que antecedesse essa decisão e permitisse a formulação coletiva de um novo texto para apreciação do Parlamento, caímos num vácuo legal, onde tudo é permitido. Na prática, pode até não ser assim, mas, em tese, é. Ainda que uma Folha de S. Paulo anuncie uma nova reforma editorial, prometendo mundos e fundos, será que a autoregulamentação alcança toda a complexidade que esse assunto abrange? E agora? - de novo. Agora, dizem, caberá ao Parlamento discutir o texto de uma nova lei, que virá definir os novos parâmetros para a atividade jornalística. Mas qual Parlamento? Esse mesmo que aí está. Esse mesmo, que tem sido incansavelmente bombardeado por essa mesma mídia que aí está. Não vou entrar no mérito das críticas que viram manchete de jornais todos os dias, algumas muito justas, outras nem tanto. Algumas saídas de nem sei onde, outras fruto do trabalho investigativo de jornalistas responsáveis. Aqui não vem ao caso. O fato é que, depois desse bombardeio, teremos um Parlamento em forma para conduzir essa discussão? Não sei.

E, claro, isso é preocupante. Um Parlamento enfraquecido poderá enfrentar o poder de uma mídia que, agora, atua sem nenhum limite? E será que essa mídia que aí está, não tem também, lá no fundo, bem no fundo mesmo, uma pontinha de pretensão de vir a substituir esse Parlamento enfraquecido na representação dos interesses da sociedade e na fiscalização do Poder Público? E será que essa mídia é mais competente para representar a pluralidade de interesses que permeia a nossa sociedade, mais do que um Parlamento, ainda que com toda a precariedade que o nosso ainda sofre? Também não sei, mas, na dúvida, prefiro o Parlamento, que pode ser renovado a cada quatro anos.

Eu avisei: minhas ideias ainda estão embaralhadas e viraram uma grande salada, mas é mais ou menos por aí que vou continuar pensando. E tomara que esse debate, que não tenho esperança de tão cedo poder acompanhar, aconteça bem antes do que o meu pessimismo tem permitido.

Inté.
Foto: minha. De uma exposição no Palácio das Artes.


Domingo, Abril 19, 2009

Vamos passear, meu bem

Ainda continuo por aqui, embora muito mais por aí. É a vida. Mal me distraio com algum pensamento e lá vem ela me chamar. Como não sei dizer não, largo o que estou pensando de lado e, cegamente, sigo por onde ela me leva. E assim vou indo. Mas tem dia que a vida me esquece e aí consigo escapar dos afazeres demorando um pouco mais no meio do caminho. Ando mais devagar de propósito; topo os engarrafamentos sem aborrecimento; e ainda estico os trajetos, inventando saídas novas e mais longas.

Foi numa oportunidade dessas que me reencontrei com Adélia Prado. Estava tentando subir a Antônio Aleixo, mas a rua estava entupida de carros. Já ia ligar o rádio, para ajudar a passar o tempo, mas resolvi fazer diferente. Em vez de notícias, preferi ligar o som e seguir com Adélia recitando seus poemas. Fomos passeando pela cidade, cortando a Praça da Liberdade, descendo Cláudio Manoel, virando Pernambuco, Santa Rita Durão e tomando o caminho de volta para casa.

O que gosto em Adélia é do seu jeito caseiro de falar das coisas mais complicadas da vida. Sem nenhum requinte, sem nenhum excesso, ela torna essa nossa experiência cotidiana e banal na coisa mais importante do mundo. Redimensiona nossa rotina e a torna divina e sagrada. Escamar um peixe no meio da noite deixa de ser desaforo e torna-se um ritual de amor. Também gosto do jeito que ela trata as nossas doidices, sem nenhuma cerimônia. Mulher tem disso mesmo, divaga, viaja, desliga sem mais nem menos, estranha as coisas mais comuns do mundo e faz loucuras como se fossem absolutamente naturais. E temos mesmo de ser doidas ou santas, como ela diz, para darmos conta dessa nossa inconstância.

Mas, principalmente, preciso de algumas doses de Adélia Prado, de tempos em tempos, é para recuperar o sentido da vida. Ela é muito boa nisso. Nem falo da sua poesia nem da sua prosa. Falo dela mesma. Da sua sabedoria, da sua generosidade para lidar com a nossa pequenez diante das coisas que realmente valem a pena nesse mundão. Ela nos consola e nos conforta ao se igualar a todas nós, mesmo sendo tão especial. Por isso é muito bom passear com Adélia Prado. Experimentem.
Sobre o significado da arte/vida


Adélia recitando poesias



Duas doses, bem dosadas.

Inté outro dia.

Domingo, Março 29, 2009

O apagão

Por uma boa causa

É claro que ficamos no escuro. De oito e trinta da noite até nove e trinta do último sábado, ficamos no breu. Eu participei do apagão! Entrei no clima. Estou no clima faz tempo! Não é de hoje que dei um apagão no mundo. Me afastei. Desliguei todos os contatos para não me deixar contaminar pelo falatório desorientado dos analistas que tentam, sem sucesso, entender para onde essa crise está nos empurrando.

Que esse mundo, do jeito que vinha vindo, ia dar errado, todas nós já sabíamos. Que agora precisamos, com urgência, escapar do centro desse ciclone, também sabemos. Que, para isso, precisamos reiventar o nosso jeito de estar no mundo, mais uma vez concordamos. Só que é exatamente aí que mora o problema. Que jeito é esse que vamos inventar? Nem Anthony Giddens, o arquiteto da terceira via, nos ajudou muito com sua entrevista à Folha de São Paulo, neste domingo.

Que a crise financeira global está exigindo uma redifinição radical da sociedade em que vivemos, sabemos. Que esse mundo novo terá de inventar um modelo de desenvolvimento auto sustentável, mais igualitário, solidário e tolerante, também sabemos. Que será diferente de tudo o que já aprendemos até hoje, já imaginávamos. Mas tudo isso em nada nos ajuda a avançar. Fazem parte do mesmo falatório nosso de todos os dias.

O que urgimos nesse momento, sem demora mesmo, são das práticas que tornarão possível a retomada da nossa história na Terra. E para enxergá-las com nitidez, precisamos, sim, dar um apagão no mundo, desaprender a lógica que nos fez entendê-lo até aqui, buscar alcançar novos pontos de vista para reabrir os olhos de frente para novas paisagens, novas possibilidades. Aí sim, quem sabe, conseguiremos ver essas práticas inovadoras de que tanto precisamos.

Mas, por enquanto, ainda estamos na escuridão. Num apagão criativo, para não embarcarmos no pessimismo alheio.

Inté

Foto: minha, no últmo sábado, do escritório nas escuras.

Quinta-feira, Março 26, 2009

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O que exatamente significa éon? Qual a medida exata de um éon? E antonomásia? De onde vem? Será que dói? Será que epizêuxis nos salvaria das grandes tragédias? Onde fica Ougadougou? E Eritréia? Quantas pessoas já conseguiram alcançar o topo do Monte Everest ou Monte Chomolangma ou Qomolangma, em bom tibetano? Quem vai enfrentar a Belamcanda chimemsis, essa herbácea rizomatoza que ameaça o meio ambiente tanto quanto nós? Como vamos derrotar as plantas exóticas invasoras? E quanto é um trilhão de dólares? Qual a medida exata em linha reta de um trilhão de notas de um dólar? Seria suficiente para dar a volta em torno da terra? Sobrariam notas para mais algumas voltas? Ou não?

Se minhas dúvidas fossem só essas, estaria feita. Mesmo se fossem outras, mas da mesma natureza, estaria com sorte. O google resolveria todos os meus problemas. Mas a minha ignorância é muito maior e engorda dúvidas muito mais indigestas. Enquanto a terra gira à nossa revelia, o mundo vira de pernas para o ar. Nem que estivesse com tempo para ler os jornais todas as manhãs, ouvir o noticiário das rádios e da televisão, desconfio que não conseguiria entender niente de nada. E não vou nem tentar provar, porque estou na correria de sempre e, pior, sem carro. Hoje fazem 20 dias que renovei minha carteira de habilitação e até hoje não a recebi em casa, como me prometeram. Dá para entender? Também não.

Se a ignorância é inevitável, vou desfrutá-la. Quando o céu ficar mais claro, o mar estiver para peixes novamente e o vento soprando a favor, vou me deitar numa rede, com todos os jornais do dia, e devorá-los letra por letra. Vou ouvir todos os noticiários, das rádios e da televisão, e ver se pego no tranco. Hoje não, porque já é amanhã e tenho de levantar muito mais cedo do que gostaria.

Inté.
Foto: Pesquei na internet. Da AFP/Ahmad Zamroni